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judô x wrestling de kimono

Primeiramente, peço duplamente desculpas aos puristas por declinar do termo judo-gi, e pelo uso do anglicismo no título, mas, o tema será outro, portanto, permitam-me passar ao assunto:

A fim de assistir o Mundial de Judô, em Munique, mas sem poder me deslocar de Frankfurt, durante a semana (por razões de trabalho), contentei-me, resignado, a vê-lo pela televisão. Instalei-me na minha cadeira do papai, controle remoto em uma das mãos, caneca de cerveja na outra. Minha mulher, que nunca viu uma luta de Judô, sentou-se ao meu lado. Depois de alguns combates (disputas de terceiro lugar dos pesos de até 100kg e mais de 100kg) a patroa não agüentou mais: "Este é o esporte mais sem graça que já vi! É isso que você pratica todas as noites?". Claro que não respondi. Não aceito provocações gratuitas, mas, de qualquer maneira o assunto merece reflexão. Desde meus primeiros campeonatos, antes de kokas e yukos, de chuis e shidos, de "manivelas" e outras sinalizações contemporâneas, já se discutia qual estilo de luta era o mais eficiente no Judô. De um lado, os defensores dos judocas com estilo clássico e seus ippons espetaculares, do outro lado, os pró-judocas, cujo estilo se parecia mais com o dos lutadores de vale-tudo, samboístas, lutadores de jui-jitsu, lutadores de luta greco-romana de kimono e suas vitórias por decisão. Em toda competição, tanto um estilo quanto outro, subiam ao pódio, e suscitavam o tema sempre presente, "a beleza do estilo de uns, versus a eficiência do estilo de outros".

Até hoje a questão divide apaixonados do nosso meio, mas, vale ressaltar, está ausente em esportes onde as vitórias são medidas em centímetros, quilos, segundos, etc. A busca por gestos estéticos nestes esportes é absolutamente supérflua. Só o resultado objetivo, mensurável, importa.

Já, no Judô, a questão se coloca realmente, uma vez ser, em parte subjetivo, o julgamento dos árbitros, dos quais resulta o vencedor. Neste contexto, cabe perguntar: Finalmente, como julgam os árbitros? Claro, a objetividade do julgamento existe. Número de ataques de um e outro, falta de combatividade, segundos de osae-komi, projeção dentro ou fora do shiai-jo, etc. Quanto ao ippon, este pressupõe, também, um julgamento subjetivo. Contém, certamente, valores estéticos, e, como todo valor estético, relacionado à vivência do árbitro. Eu diria que árbitros julgam por modelos próprios daquilo que seria, para eles, o ippon perfeito, o que, certamente, difere de um árbitro para outro. A partir deste raciocínio poderíamos até supor que árbitros tendam a ver com melhores olhos as técnicas de sua predileção, mas, creio que o tema não se esgota ai. Restaria saber por que atletas optam por um estilo, ou outro, e ainda, se o atleta teria margem de opção por um estilo próprio?

Levanto a hipótese de que o estilo está ligado à personalidade e ao caráter do judoca. Obviamente, os grandes judocas são perseverantes, combativos e buscam a vitória obstinadamente. Mas há sempre aqueles que se diferenciam por serem mais talentosos, criativos e vaidosos. No meu entendimento, estes buscariam um estilo mais refinado, com preocupações estéticas.

Quanto à eficiência de um estilo ou outro, o último Campeonato do Mundo de Judô, em Munique, além de outras lições, que poderão ser discutidas oportunamente, lançou luz sobre o a dualidade de estilos no Judô. Afinal, qual o mais eficiente? A luta final da categoria de até 73kg, que confrontou o russo ao o japonês, é emblemática, não só pelo fato de ambos haverem lutado de maneira espetacular, buscando abertamente o ippon, mas também, por demonstrar que os judocas dos países do leste europeu podem ter um estilo clássico de Judô. Seus protagonistas, ao assumirem riscos, tiravam o fôlego da multidão. Maravilharam os espectadores com a rapidez e a beleza de seus movimentos. Enfim, deram a verdadeira dimensão do potencial de penetração deste esporte junto ao grande público. O atleta russo acumulou dois yukos (okuri-deashi-barai), um wazari (uchi-mata), e finalmente, o ipon (uchi-mata). Quanto ao japonês, um yuko e um wazari, ambos de seoi-nage. Comentário entre os que a assistiram o combate: "Esta luta valeu o preço do ingresso"; "Se todas as lutas fossem assim, o Judô seria o esporte mais popular do mundo".

Finalmente, se os judocas de estilo clássico, da luta acima descrita, chegaram à final da categoria, foi porque, claro, venceram seus oponentes. No entanto, isto é pouco para comprovar a maior eficiência de um estilo em relação ao outro, mas, parece óbvio que, para o grande público, assim como, para minha mulher, o estilo clássico de Judô é o mais apropriado.

João Gilberto Souza - Faixa preta 4.º dan

João Gilberto Souza é vice-consul do Brasil em Frankfurt. Faixa preta 4.º dan, estagiou no Japão (um ano na Universiade de Tenri), na França (4 anos), foi presidente da Federação Metropolitana de Judô (DF).

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